Coesão – Parte II
Appy-polly-loggies
Eu não podia acreditar.
Realmente, não podia. É que devo ficar nervosa quando lido com situações sérias. Então, o riso me escapa…
Eu era o reflexo do meu repúdio. Era o empirismo de Hobbes, já que, como poderia culpar a sociedade com uma hipocrisia? O sorriso foi tão nítido, tão instintivo, que era óbvio que eu não tinha conhecimento das minhas intenções. Isso se dá pelo fato de eu nunca ter me considerado má.
- Não conte a ela que você está a par de tudo. Ela nunca me perdoaria, mas foi necessário. – falei de súbito, com a coitada ainda saindo, ao tentar me livrar de alguma agonia.
- Claro que não. E obrigada. – disse, inocentemente, como a maioria de nós, que sempre acredita que a bondade pode e deve estar nos outros. Já que, definitivamente, não está em você.
Essa última frase; esse agradecimento. Poderia ter ficado em branco para que eu, pelo menos, continuasse o meu dia me conformando em ser, simplesmente má por natureza. No entanto, ao dizer “obrigada”, tira-se o peso de uma ”tarefa a recompensar” e o transfere em forma de “sou um bom cidadão” para quem o falou. Não consigo, contudo. Assim sendo, carreguei não só a certeza de que era o espelho das minhas hipocrisias, mas a esperança inválida da humanidade nela mesma.
Coesão – Parte I
Justiça Enlatada
- Vou arrumar o quarto e já volto.
E foi.
Só que senti falta dela. Dividíamos um apartamento pequeno e reclamávamos incessantemente da mania e presença uma da outra. Porém, senti falta naquele intervalo de cinco minutos. Abri a porta do quarto e lá estava, sentada na cama, como que uma criança na pele de um adulto que acabou de ser descoberto, mas finge ser correto e soberbo. Em sua mão, uma carta. Olhei e, pela letra, pela cor do papel e estado de conservação, notei que não me pertencia. Nem a ela.
- Tem alguma coisa errada. – ela se justifica.
- Sim. Você está lendo uma carta que não é sua. Esse é o erro. – Retruquei.
- Eu sei, mas você não entende. Tem algo muito errado. – disse ela, como que impondo um tom gentil ao desrespeito que estava cometendo. No entanto, eu a conhecia e sabia que não passava de curiosidade embutida em falso altruísmo.
Saí do quarto e fechei a porta. Rosnava por dentro e precisava latir em algum canto. Hesitei. Fui, pois, contar à verdadeira dona da carta. Na minha cabeça, por mais que soasse como uma desprezível fofoca, era meu dever falar a ela. Como se fosse insuportável conviver em um ambiente em que você seja cúmplice de uma sujeira feita com alguém que você ama.
- E foi isso que aconteceu. – vomitei.
- Não posso acreditar! Que falta de respeito! – e andou, indignada, em direção a algum lugar onde pudesse ficar sozinha.
No entanto, no lugar da expressão antes determinada a surgir serena e leve, nasceu um sorriso à la Alex DeLarge, Dorian Gray e toda a personagem que possua aquele sorriso de lado, cínico.
-
Recentes
-
Links
-
Arquivos
- janeiro 2011 (1)
- dezembro 2010 (1)
- novembro 2010 (1)
- junho 2010 (2)
- maio 2010 (1)
- abril 2010 (1)
- março 2010 (2)
- fevereiro 2010 (2)
- janeiro 2010 (5)
- dezembro 2009 (6)
- novembro 2009 (3)
-
Categorias
-
RSS
RSS Entradas
RSS Comentários