Coesão – Parte I
Justiça Enlatada
- Vou arrumar o quarto e já volto.
E foi.
Só que senti falta dela. Dividíamos um apartamento pequeno e reclamávamos incessantemente da mania e presença uma da outra. Porém, senti falta naquele intervalo de cinco minutos. Abri a porta do quarto e lá estava, sentada na cama, como que uma criança na pele de um adulto que acabou de ser descoberto, mas finge ser correto e soberbo. Em sua mão, uma carta. Olhei e, pela letra, pela cor do papel e estado de conservação, notei que não me pertencia. Nem a ela.
- Tem alguma coisa errada. – ela se justifica.
- Sim. Você está lendo uma carta que não é sua. Esse é o erro. – Retruquei.
- Eu sei, mas você não entende. Tem algo muito errado. – disse ela, como que impondo um tom gentil ao desrespeito que estava cometendo. No entanto, eu a conhecia e sabia que não passava de curiosidade embutida em falso altruísmo.
Saí do quarto e fechei a porta. Rosnava por dentro e precisava latir em algum canto. Hesitei. Fui, pois, contar à verdadeira dona da carta. Na minha cabeça, por mais que soasse como uma desprezível fofoca, era meu dever falar a ela. Como se fosse insuportável conviver em um ambiente em que você seja cúmplice de uma sujeira feita com alguém que você ama.
- E foi isso que aconteceu. – vomitei.
- Não posso acreditar! Que falta de respeito! – e andou, indignada, em direção a algum lugar onde pudesse ficar sozinha.
No entanto, no lugar da expressão antes determinada a surgir serena e leve, nasceu um sorriso à la Alex DeLarge, Dorian Gray e toda a personagem que possua aquele sorriso de lado, cínico.
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