Remaining young forever

Uma homenagem a duas figuras

(…) Frequentemente, as autoridades pensam: como um certo prisioneiro passa anos e anos suportando seu destino em silêncio, acomodado, chegando mesmo, devido ao seu comportamento, a ser promovido a “monitor” e, de repente, sem um motivo lógico, como possuído pelo demônio, se põe a beber, a fazer estardalhaço, a brigar, chegando a cometer as maiores atrocidades, matando ou ferindo alguém, desobedecendo abertamente um funcionário graduado ou coisa assim? A administração não consegue entender. Contudo, há razão e de sobra para explosões dessa mudança súbita de temperamento. Por mais repentinas, essas coisas surgem de uma ânsia pelo resgate da personalidade, de uma instintiva e angustiosa busca de si mesmo, o desejo de recuperar sua identidade arrancada, num crescendo que se chega até aos extremos mais loucos e incontidos. É algo comparável ao enterrado vivo, que acorda de repente e desanda a dar murros no caixão tentando quebrá-lo, não obstante em saber que de nada adianta esse desesperado esforço. Não se trata de saber se há ou não lógica. A razão não conta nesse caso. Além disso,  consideram que qualquer afirmação de identidade num detento nada mais é que um novo acesso criminoso, eis por que ele mesmo não liga para as consequências, tanto faz. Se está com vontade de beber, então beberá até cair. Se correrá riscos, então que assim seja! O melhor é permitir a esse homem expandir um pouco a sua potencialidade. Assim todos saem ganhando.

Mas como?

O último que restava conhecer entrou na sala, o Henrique, que parecia ter lá sua juventude andada. Seu rosto eloquente, firme, completo e ao mesmo tempo faltoso ganhou a minha curiosidade; eu me senti feliz por ter encontrado alguém que queria ser a personagem de um romance tanto quanto eu. Toda essa vontade se expandia naquele rosto desengonçado, ou melhor, desajeitado. Seu sorriso era tão levado pelo fluxo próprio, seus olhos claros tão ausentes, que era um consolo e um alívio, naquela vida de dúvida e insegurança, encontrar uma imagem minha invertida. Falo sem nenhuma acusação. Lá na terra natal, diziam que se assanhava para qualquer uma. A busca pelo todo era tão sagrada  nesses tipos de ego manchados que o rapaz não perguntou sequer quem era quando instigou a ele próprio conquistar a Meninaqualquer. O tom de despropósito foi logo descoberto e, por isso, Henrique atracou nesta sala. Seus colegas pareciam gostar muito dele, tratando-o mais como amigo de longa data do que como colega. Era para eles um alívio na sala e, por mais taciturnos que vivessem, logo sorriam quando o viam; ao falarem com ele (o que habitualmente acompanhado de uma cegueira induzida por eles mesmos à sua realidade natal) suas fisionomias apreensivas se iluminavam de forma fosca, percebendo eu, pela mímica e pelos gestos, que brincavam com ele como um velho amigo, comentando a rir entre si qualquer resposta do querido. Ele próprio mais ainda lhes dirigia a palavra, tal a admiração que os dedicava. É difícil compreender como esse rapaz conseguiu manter durante todo esse tempo de sua reclusão ali essa candura imposta, essa aparência de honestidade a toda prova, uma tal fortaleza de ânimo, em lugar de se abrir e se mostrar. A verdade é que, não obstante a confusão de sentimentos, era uma natureza controversa. Tive tempo o suficiente para estudar sua índole e seu caráter. A menor ação cínica, ignóbil, sórdida praticada na sala acendia um fogo de identidade em seus olhos, tornando-os ainda mais admiráveis. No começo, mostrou-se delicado para comigo, nada mais; pouco a pouco, dei em conversar com ele; em alguns meses já escutava o que ele falava.  Logo reparei que desejava Saber, nada modesto, mas amigável, de índole harmoniosa. Declaro que se tratava de pessoa totalmente fora do comum, e considero o conhecimento que travei com ele um dos mais úteis para a minha vida. Há criaturas que vêm ao mundo com tais dons, premiadas pelo Diabo com tais virtudes e moldadas por Deus para determinadas direções, de modo que se torna absurdo pensar que um dia venham a se construir. Ainda hoje temo pelo rumo de Henrique. Onde quer que esteja, será o mesmo.

14 14UTC dezembro 14UTC 2010 - Publicado por | Nude... :)

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