Pensamento profundo n° 3
You’ll close your door and go to bed
You’ll try to sleep without a dream
That’s where she finds you
Acordei com a gengiva dolorida do que parecia ter sido um longo período com os dentes fortemente travados. A palma das mãos estava com as marcas das unhas e minha expressão era de desespero. Olhei para o lado e meu irmão estava assistindo ao final de 2001: Uma Odisséia no Espaço, espiando-me com olhar de susto e rosto de foda-se. Não era um daqueles pesadelos que não se consegue dormir por medo de fechar os olhos e, ao abrí-los, dar de cara com o Jack Torrance sussurrando “here’s Johnny!” no seu ouvido.
Não consegui pegar no sono por não me conformar de ter considerado aquele sonho um pesadelo. Afinal, eu sabia que se eu o interpretara daquela forma, era pelo fato de algum lugar da minha mente ter certeza de que o era (assustador). Tratava-se de uma menina esbarrando com o rapaz que gostava, em um lugar qualquer, ao acaso. Na verdade, não era ao acaso, nem em um lugar qualquer; ela sabia que era mais um dos milhões de interesses em comum que os dois possuíam e que possivelmente se encontrariam lá, mas o que fazer? Não, isso era dela também. Ao se cruzarem, ele não se conformou com o que encontrou, pois já estava saturado com aquelas coincidências, que de nada eram poesia em sua cabeça. Ele a olhou e ela sentiu (ela que estava sonhando) o que escutaria. Sofreu a agústia de antemão, pensou em todos os contra-argumentos da fala que estava por vir, indignou-se e só percebeu uma boca à sua frente tentando mimetizar “É tempo de você desistir”. Aos poucos, ele a ultrapassou, ficou mais longe, agora inalcansável, e ela começou a correr. Ao correr, percebeu que parecia não haver mais gravidade ao seu redor (e ele mais longe). Ao gritar, percebeu que a distância já era muito grande. Ao pensar, seus argumentos já não surtiam efeito. Foi ficando nervosa com a sua incapacidade e seu rosto começou a se fechar, seus dentes a trincarem, suas unhas a agarrarem suas mãos.
Eu sonho com cor e dor, consigo direcionar com o que sonhar e, principalmente, posso saber que o é e acordar a hora em que eu bem entender. Mas não dessa vez; dessa vez eu senti e vi, mas não soube de forma alguma que não era realidade.
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